Como não gosto de me levar nas correntes mainstream e faço um sério esforço de evitar ser considerado cool decido comentar o pós-autárquicas apenas em Dezembro. Porquê? É rejubilante assistir ao início de um mandato, conjutamente com os ataques ferozes dos derrotados.
Almeida Henriques ganhou. Sem surpresas até aqui, não se esperava outro desfecho, até porque provavelmente 60% dos votos foram ao Dr. Ruas (diria mesmo que as pessoas procuravam a setinha alada ao invés do nome), e assim Henriques continua nos caminhos laranjas do Cavaquistão. Não tem de ser necessariamente mau, e até agora tem sido agradável acompanhar o início de mandato.
No início de mandato é quando as promessas estão mais frescas, logo é preciso dar-lhes uma visibilidade maior. Henriques tem sido inteligente em aproximar a população à CMV, muito devido ao uso do facebook (e atenção, acho mesmo uma boa iniciativa). Mas espero que as pessoas não esqueçam que no facebook escreve-se o que se quer mostrar, e desejo muito que não esqueçam também de tentar compreender aquilo que não é mostrado... no fundo o facebook tanto pode manter as pessoas mais informadas, como mais desinformadas.
O Site da CMV também mudou. Para melhor confesso, mas ainda assim um pouco confuso. Nele pode ser consultado o Estratégia Viseu Primeiro 2013/2017. Não deixa de ser curiosa a similaridade com o guião da reforma do Estado Português, mas isso são outras contas. Li o plano de estratégia, muito na diagonal admito, porque como um tipo das ciências gosto de ler assuntos concretos e concisos, e não lagos de palavras, totalmente enraizadas em valores que são adquiridos por base do senso comum em sociedade. No fundo realça a necessidade de atrair investimento e de desenvolver a economia local (clap clap, finalmente alguém percebeu que é preciso indústria e tecido empresarial), uma CMV mais próxima da população (vamos ver se não sob guidelines estreitas), a necessidade de maior contacto nacional e internacional, entre outros. Curioso é também a criação de uns quantos Concelhos, Gabinetes e estaminés: muito bem, organizações em que as pessoas podem dar o seu contributo activo. Espero as guidelines.
Dr. Henriques: Não me posso queixar até agora (talvez os vereadores da oposição com presença no governo possam, mas acredito que o calendário municipal seja bem mais atarefado que o do governo) mas a festa está mesmo no início, pelo que estaremos atentos.
O momento de publicidade vai para a Rua Direita. Não caro leitor, não é o pedaço de Saara Viseense, mas sim o novo portal de informação da cidade. Cabe o editorial a Paulo Neto, e prima pela independência e pertinência de conteúdos. O Jornal do Centro poderá deixar saudades, mas o design atractivo e moderno da Rua Direita certamente colmatará essa falha, bem como os nomes dos colaboradores intervenientes.
Recomenda-se a adição aos Favoritos.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
O novo Paulo Ribeiro, homem que dança para os outros
Copiado integralmente de Publico.pt, por Tiago Bartolomeu Costa
É o regresso aos solos de um coreógrafo que nunca pensou no colectivo senão como um encontro de indivíduos. Sem um tu não pode haver um eu estreia-se hoje, em Viseu.
Enquanto se observa no vídeo que passa na parede em frente, os ombros do coreógrafo e bailarino Paulo Ribeiro avançam sobre o linóleo do estúdio no último andar do Teatro Viriato, em Viseu. Depois a cabeça reage, a seguir as pernas rompem o imobilismo e, por fim, é a sua voz, grave, que quer participar num movimento que ainda só se anuncia.
Sem um tu não pode haver um eu é um regresso aos solos de um homem que procurou sempre, no interior das suas coreografias, perceber como podiam os indivíduos construir uma relação de intensa proximidade com o outro. O outro aqui era, pela lógica, o bailarino ao seu lado.
Mas, ao olharmos para os seus trabalhos, percebemos que os corpos que Paulo Ribeiro convocou sempre para palco eram corpos desejantes. Como acontece, por exemplo, praticamente nos extremos da sua criação: Jim (2012), a obra mais recente, abria com um solo do próprio coreógrafo, propondo uma revolução dançada ao jeito de cada um que, ao ser interpretada por vários bailarinos ao mesmo tempo, dava a sensação de ser a mesma a revolução que todos partilhavam; Sábado 2 (1995) propunha uma fusão dos corpos que parecia acreditar na possibilidade utópica da comunhão.
Corpos que viviam e admitiam morrer (assim era, por exemplo, em Tristes Europeus – Jouissez sans Entraves, 2001, momento elegíaco de um colectivo social por vir) porque, tal como reafirma o título desta nova peça, roubando uma frase ao realizador e encenador sueco Ingmar Bergman sobre a relação entre o artista e o público, "sem um tu não pode haver um eu".
É preciso recuar até 1991, ano de todos os começos, para encontrar o que ficou do outro lado espelho. Modo de Utilização, primeiro solo de Paulo Ribeiro, experimentava já a evocação de uma presença que queria sair do palco, que queria estender esse palco até à expectativa criada por quem o via. Um solo era, afinal, uma dança a dois – tal como uma dança a dois pode ser a mais solitária das danças (Malgré Nous, Nous Étions Là, com Leonor Keil, 2007).
Mas esse Modo de Utilização, uma espécie de ars poetica dançada, era peça de juventude, iniciática e, por isso mesmo, como escrevia André Lepecki na altura, no jornal Blitz, “às vezes tudo faz sentido, outras vezes há uma indefinição na personagem que nos é apresentada”. Passados 22 anos a indefinição é de outra ordem. Da ordem do sensível, do poético, já não tão especulativa, mas, ainda assim, livre, muito livre. Tão livre que podemos encontrar a mesma frase coreográfica interpretada, ao mesmo tempo, de modos diferentes, por um gesto nascido no pé e terminado na mão. É desta amplitude, desta espécie de tudo querer abraçar, que parte um solo que nos devolve um Paulo Ribeiro em forma, capaz de ocupar um espaço sem pedir meças a elementos acessórios.
E, por isso mesmo, o ponto de partida que foi a biografia de Bergman, Lanterna Mágica, é aqui mitigado, transformando-se numa sombra difusa, na memória auxilar de um movimento que se reinventa a cada suspensão e que insiste numa composição resiliente, crente na superação do gesto através do desejo pelo outro. “Ou morro, ou ela vai ser um estímulo dos diabos”, disse Bergman a uma das suas mulheres, no início de mais um casamento.
“Um estímulo dos diabos” também esta coreografia, “criação em tempos difíceis”, para recuperar o título original, que hoje se estreia em Viseu e em 2014 será apresentada nos teatros co-produtores: Centro Cultural de Belém (Lisboa), Teatro Nacional S. João (Porto) e Centro Cultural Vila Flor (Guimarães). Tempos difíceis porque colocam a pergunta: "Como se pode regressar ao solo quando se construiu, em colectivo, um discurso sobre a relação de dependência que sustenta a vida em comum?".
Para o coreógrafo trata-se não exactamente de um regresso às origens, mas de um recomeço, apenas possível porque se imagina como derradeiro. “É com estas palavras e as suas músicas que eu gostaria de voltar a dançar e talvez, desta vez sim, dançar pela última vez”, diz. Não se acredita que assim seja. Não é possível admitir que reclame para si esta presença e não deseje depois prolongá-la.
A chave está nas passagens da biografia de Bergman que Paulo Ribeiro sublinhou, pequenas marcas, pistas para uma coreografia em que, ao contrário do que acontecia nos solos das peças de grupo Masculine (2007) e Feminine (2008), que existiam na ambição de desaparecerem no interior de um gesto colectivo, o coreógrafo olha para si mesmo, para o que ainda é capaz de fazer e o surpreende, respondendo ao desafio do realizador sueco sem demoras: “Toma cuidado grandessíssimo malandro! Na minha próxima peça vou ajustar contas contigo."
O ajuste de contas é agora. E, assim, enquanto vai tirando o tapete a si mesmo, enquanto nos vai envolvendo com e num movimento que, mais do que se metamorfosear se alarga, conspira contra si mesmo e abandona todo o formalismo e toda a consciência da dor, é mais do outro que de si que fala. É mais o outro que dança.
“Dispus-me, portanto, a atacar os demónios que me torturavam”, diz Bergman. E então, percebemos: dança do exorcismo, coreografia da expiação, movimentos de abandono sim, mas não de retirada. Construção poética para um homem que nunca quis estar sozinho. Eis Paulo Ribeiro, com o mesmo movimento pequeno, nervoso, feito de choques e de confrontos, agora exposto em toda a sua vontade de deixar de olhar para os outros e começar a falar de si.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Seus olhos
Seus olhos - que eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino
Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
Almeida Garret
terça-feira, 29 de outubro de 2013
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Segundo AR
J: Também disse numa outra ocasião que lhe custava ver a «corajosa juventude portuguesa» com «medo de viver».
AR: A juventude portuguesa é como todas as demais europeias: generosa, cheia de seiva, inteligente, votada aos grandes destinos. Tenho porém muito medo dos mestres e dos mentores. A cada passo surge o diabo ao caminho. Um diabo de rabo pelado para que os jovens lhes hipotequem a alma. Quem os adverte do perigo? De modo geral este demónio vem embuçado, com todo o recato, em pés de lã, comedido e prudente, e fala como os antigos lentes de Coimbra: — Moço, teus pais eram assim, eram assado. Eram felizes. Fizeram esta nação grande. Amavam a Deus, etc., etc., etc. — Quais pais?, pergunto eu. Os nossos pais navegavam por debaixo das ondas? Atravessavam para o Rio, por exemplo, em nove horas? Viajavam na estratosfera? Ouviam Londres em Lisboa? Ressuscitavam duas e três vezes na mesa operatória? Para estes progressos da física e da fisiologia humana forçoso é que haja outra mentalidade. Ou que se invente. Nisto está a grande obra da pedagogia. É para essa inovação transcendental do psíquico que eu
dirijo o meu convite à juventude portuguesa.
J: De que forma, exatamente?
[Acordaram o escritor e o jornalista que a resposta a esta pergunta, sob a forma de mensagem, seria do próprio punho de AR. O texto, um dos últimos por si escritos, foi entregue dias depois. A extensão da mensagem era no mínimo o dobro da que se reproduz em consequência dos cortes feitos pela Censura. As
chamadas “provas de granel” devolvidas ao jornal pela Censura foram confiadas a Aquilino na antevéspera da publicação e poucas semanas antes da sua morte].
AR: De que forma? Não tendo medo de viver. Tapando os ouvidos às vozes dos velhos do Restelo, todavia sem que esse repúdio provoque o desequilíbrio da sua pessoa moral, que é um edifício mais bem interessante do que os construídos pelos arquitetos à beira das ruas.
Que os jovens, repito, não tenham medo de viver. Que não tenham relutância em estudar. É uma questão de persistência de princípio, como já disse, porque depois torna-se agradável singrar pelas esferas novas do saber como viajar pelas terras desconhecidas ou singrar em canoa a motor nas águas mansas de um lago. Que a juventude não tenha medo da afronta dos maus, dos medos do espírito e fuja das cocas [ardis] que todos os inimigos do progresso lhes hão de querer pôr nos olhos, que, no fundo, são hediondas como caraças de carnaval. Que amem a vida pela vida e pela beleza que encerra, nada mais que no facto de o homem se sentir um ser útil à sociedade e, porventura, ao mundo, a despeito das paredes que delimitam o nosso Portugal da Europa. E mais uma vez: estudem. Compenetrem-se de que a vida somos nós que a fazemos como um padeiro amassa o pão às mãos ambas ou um escultor à greda em que modela a estátua. Só assim a vida se saboreia no que tem de saborosos tesouros íntimos reservados.
AR: A juventude portuguesa é como todas as demais europeias: generosa, cheia de seiva, inteligente, votada aos grandes destinos. Tenho porém muito medo dos mestres e dos mentores. A cada passo surge o diabo ao caminho. Um diabo de rabo pelado para que os jovens lhes hipotequem a alma. Quem os adverte do perigo? De modo geral este demónio vem embuçado, com todo o recato, em pés de lã, comedido e prudente, e fala como os antigos lentes de Coimbra: — Moço, teus pais eram assim, eram assado. Eram felizes. Fizeram esta nação grande. Amavam a Deus, etc., etc., etc. — Quais pais?, pergunto eu. Os nossos pais navegavam por debaixo das ondas? Atravessavam para o Rio, por exemplo, em nove horas? Viajavam na estratosfera? Ouviam Londres em Lisboa? Ressuscitavam duas e três vezes na mesa operatória? Para estes progressos da física e da fisiologia humana forçoso é que haja outra mentalidade. Ou que se invente. Nisto está a grande obra da pedagogia. É para essa inovação transcendental do psíquico que eu
dirijo o meu convite à juventude portuguesa.
J: De que forma, exatamente?
[Acordaram o escritor e o jornalista que a resposta a esta pergunta, sob a forma de mensagem, seria do próprio punho de AR. O texto, um dos últimos por si escritos, foi entregue dias depois. A extensão da mensagem era no mínimo o dobro da que se reproduz em consequência dos cortes feitos pela Censura. As
chamadas “provas de granel” devolvidas ao jornal pela Censura foram confiadas a Aquilino na antevéspera da publicação e poucas semanas antes da sua morte].
AR: De que forma? Não tendo medo de viver. Tapando os ouvidos às vozes dos velhos do Restelo, todavia sem que esse repúdio provoque o desequilíbrio da sua pessoa moral, que é um edifício mais bem interessante do que os construídos pelos arquitetos à beira das ruas.
Que os jovens, repito, não tenham medo de viver. Que não tenham relutância em estudar. É uma questão de persistência de princípio, como já disse, porque depois torna-se agradável singrar pelas esferas novas do saber como viajar pelas terras desconhecidas ou singrar em canoa a motor nas águas mansas de um lago. Que a juventude não tenha medo da afronta dos maus, dos medos do espírito e fuja das cocas [ardis] que todos os inimigos do progresso lhes hão de querer pôr nos olhos, que, no fundo, são hediondas como caraças de carnaval. Que amem a vida pela vida e pela beleza que encerra, nada mais que no facto de o homem se sentir um ser útil à sociedade e, porventura, ao mundo, a despeito das paredes que delimitam o nosso Portugal da Europa. E mais uma vez: estudem. Compenetrem-se de que a vida somos nós que a fazemos como um padeiro amassa o pão às mãos ambas ou um escultor à greda em que modela a estátua. Só assim a vida se saboreia no que tem de saborosos tesouros íntimos reservados.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
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